Da Desordem Operacional à Excelência Logística: A Reestruturação de um Centro de Distribuição na Votorantim Cimentos

Resumo

Este artigo apresenta um estudo de caso aplicado à reestruturação operacional de um centro de distribuição da Votorantim Cimentos, destacando a implantação de estratégias voltadas para ampliação da capacidade logística, territorialização da demanda, integração sistêmica e gestão de exceções operacionais.

A operação enfrentava limitações críticas relacionadas à disponibilidade de veículos, baixa previsibilidade logística e desempenho abaixo das metas no indicador ON TIME. A partir da implementação de ações estruturadas de captação de transportadores, segmentação regional de atendimento, integração entre comercial e logística via SAP e criação de modelos táticos de contingência, foi possível estabilizar a operação, elevar o nível de serviço e aumentar significativamente a eficiência operacional.

O case demonstra como estratégias operacionais simples, aliadas à disciplina de execução e alinhamento interfuncional, podem gerar ganhos relevantes em operações industriais de alta complexidade.


1. Introdução

Operações logísticas industriais demandam elevado nível de coordenação entre capacidade operacional, disponibilidade de transporte e previsibilidade de demanda. Quando essas variáveis deixam de operar de forma sincronizada, os impactos surgem rapidamente na expedição, distribuição e nível de serviço.

O presente estudo apresenta a reestruturação operacional de um centro de distribuição da Votorantim Cimentos localizado em Feira de Santana (BA), em um contexto de forte crescimento comercial, aumento do volume de pedidos e insuficiência da estrutura logística para suportar a demanda existente.

O cenário exigiu atuação direta na reorganização da operação, ampliação da disponibilidade de transporte, integração entre áreas e implantação de modelos logísticos mais previsíveis e eficientes.


2. Contexto Operacional

A unidade operava sob características típicas de alta complexidade logística:

  • Elevado volume diário de pedidos de cimento e derivados;
  • Predominância de operações CIF;
  • Distribuição regional pulverizada;
  • Forte dependência de transporte rodoviário;
  • Alta pressão comercial por atendimento imediato;
  • Operação com necessidade constante de expedição rápida e cumprimento de metas de nível de serviço.

Apesar do crescimento comercial consistente, a operação apresentava limitações estruturais relevantes, principalmente relacionadas à disponibilidade de veículos para carregamento e distribuição.

O principal impacto refletia diretamente:

  • no acúmulo de pedidos;
  • na dificuldade de formação de carga;
  • no aumento de atrasos;
  • e na baixa performance do indicador ON TIME.

3. Diagnóstico dos Gargalos

A análise operacional identificou gargalos estruturais relevantes.

3.1 Déficit de Veículos para Atendimento da Demanda

A disponibilidade de caminhões era insuficiente para absorver o volume operacional diário, comprometendo diretamente:

  • o fluxo de expedição;
  • a estabilidade operacional;
  • e a capacidade de atendimento.

3.2 Ineficiência na Formação de Carga

Pedidos pulverizados e ausência de agrupamento geográfico dificultavam:

  • consolidação de cargas;
  • ocupação eficiente dos veículos;
  • e planejamento antecipado da expedição.

3.3 Roteirização Reativa

A roteirização era executada sob pressão operacional, sem previsibilidade adequada de demanda e disponibilidade logística.


3.4 Picos Operacionais Desbalanceados

A entrada irregular de pedidos gerava concentração excessiva de demanda em determinados dias, provocando:

  • sobrecarga operacional;
  • filas;
  • atrasos;
  • e aumento do tempo de carregamento.

3.5 Desalinhamento entre Comercial e Logística

Os pedidos eram inseridos no sistema sem aderência à capacidade operacional da unidade, dificultando o planejamento logístico.


3.6 Baixa Performance no Indicador ON TIME

O conjunto dos fatores anteriores impactava diretamente:

  • o nível de serviço;
  • a satisfação do cliente;
  • e os indicadores estratégicos da operação.

4. Metodologia de Intervenção

A estratégia adotada foi baseada em cinco pilares principais:

  • Expansão da base de transportadores;
  • Territorialização da demanda;
  • Integração sistêmica entre áreas;
  • Gestão estruturada de exceções;
  • Disciplina operacional e governança.

A abordagem utilizou princípios de Lean Six Sigma voltados para:

  • redução de variabilidade;
  • eliminação de desperdícios;
  • aumento de previsibilidade;
  • e estabilização operacional (WOMACK; JONES, 2004).

5. Implementação das Soluções

5.1 Expansão da Base de Transportadores

A primeira ação estratégica concentrou-se na ampliação da disponibilidade operacional de veículos.

Foram realizadas ações locais de captação de motoristas parceiros e transportadores autônomos através de:

  • contato direto com agentes de carga;
  • relacionamento com transportadores regionais;
  • mapeamento de motoristas passantes oriundos do interior, que retornavam vazios após outras operações logísticas.

A estratégia consistia em aproveitar o frete de retorno desses motoristas, oferecendo cargas da Votorantim Cimentos para retorno às suas regiões de origem.

Paralelamente, foi implantada uma forte campanha regional de captação de transportadores:

  • anúncios em rádios locais;
  • divulgação intensiva na região da CEASA de Feira de Santana;
  • instalação de faixas em lona nos principais postos de combustíveis;
  • distribuição de panfletos promocionais.

A comunicação destacava:

  • disponibilidade diária de cargas;
  • fretes competitivos;
  • rapidez no carregamento;
  • e qualidade da estrutura operacional da unidade.

Entre os diferenciais operacionais oferecidos aos motoristas estavam:

  • carregamento rápido e organizado;
  • baixo tempo de espera;
  • casa do motorista;
  • sala de descanso;
  • banheiros limpos e estruturados;
  • suporte operacional eficiente.

Essas ações fortaleceram significativamente o relacionamento com transportadores autônomos e ampliaram a capacidade logística da operação.


5.2 Parcerias Estratégicas com Transportadoras

Ao longo da reestruturação operacional, também foram estabelecidas parcerias estratégicas com três transportadoras distintas.

Cada transportadora passou a atuar de forma segmentada, considerando:

  • faixa de frete;
  • perfil operacional;
  • capacidade de atendimento;
  • e micro regiões específicas.

Essa segmentação permitiu:

  • maior especialização operacional;
  • melhor equilíbrio de custos logísticos;
  • aumento da disponibilidade de veículos;
  • e maior estabilidade na distribuição regional.

Além disso, reduziu a dependência operacional de uma única fonte de transporte.


5.3 Atendimento por Micro Região

Foi estruturado um modelo de atendimento baseado em micro regiões, definindo dias fixos para atendimento logístico de cada área geográfica.

O modelo foi desenvolvido a partir da análise de:

  • volumetria;
  • frequência de pedidos;
  • distância;
  • e capacidade operacional da unidade.

Principais elementos:

  • distribuição equilibrada da demanda semanal;
  • organização antecipada da expedição;
  • melhoria na formação de carga;
  • redução de picos operacionais;
  • reprogramação de pedidos fora da janela operacional.

Resultados:

  • redução de gargalos;
  • aumento da previsibilidade;
  • melhor utilização da frota;
  • estabilização operacional.

5.4 Integração com o Sistema SAP

Foi realizado alinhamento entre comercial e logística quanto ao lançamento dos pedidos no sistema SAP.

As ações envolveram:

  • definição de calendário operacional;
  • controle da entrada de pedidos;
  • aderência à lógica de micro regiões;
  • acompanhamento diário da disciplina operacional.

Resultados:

  • redução de urgências artificiais;
  • melhoria na roteirização;
  • antecipação da formação de carga;
  • elevação do ON TIME.

5.5 Otimização da Roteirização

Com maior previsibilidade operacional, tornou-se possível:

  • agrupar entregas por proximidade geográfica;
  • reduzir distâncias percorridas;
  • melhorar ocupação dos veículos;
  • aumentar produtividade logística.

5.6 Gestão de Exceções – “Projeto Kamikaze”

Foi implantada uma estratégia tática para atendimento de operações críticas e cargas emergenciais.

A estratégia consistia em:

  • negociação diferenciada de frete por quilômetro;
  • pagamento do percurso de ida e volta;
  • utilização pontual e controlada.

O projeto foi utilizado para:

  • pedidos urgentes;
  • cargas fracionadas;
  • regiões críticas;
  • e operações fora do padrão convencional.

A viabilidade financeira da estratégia foi validada junto à diretoria, demonstrando aderência ao orçamento operacional disponível.

Resultados:

  • atendimento de pedidos críticos;
  • redução de perdas comerciais;
  • preservação do nível de serviço.

6. Resultados

6.1 Operacionais

  • estabilização da expedição;
  • aumento da produtividade;
  • redução de gargalos;
  • melhoria do fluxo operacional.

6.2 Logísticos

  • ampliação da disponibilidade de veículos;
  • melhor utilização da frota;
  • otimização da distribuição;
  • redução de ineficiências operacionais.

6.3 Estratégicos

  • melhoria significativa no ON TIME;
  • aumento da confiabilidade operacional;
  • atingimento consistente de metas;
  • aumento da previsibilidade logística.

7. Discussão

Os resultados demonstram que operações logísticas industriais podem alcançar ganhos relevantes através da aplicação disciplinada de conceitos clássicos de gestão operacional.

A combinação entre:

  • expansão da capacidade logística;
  • territorialização da demanda;
  • integração entre áreas;
  • e gestão ativa de exceções

mostrou-se fundamental para estabilização da operação e recuperação do nível de serviço.

Os resultados corroboram princípios amplamente discutidos na literatura de Supply Chain Management (BALLOU, 2006; CHOPRA; MEINDL, 2016).


8. Conclusão

A transformação operacional analisada evidencia que:

  • disponibilidade logística é fator crítico para estabilidade operacional;
  • integração entre comercial e logística reduz ineficiências estruturais;
  • territorialização da demanda melhora previsibilidade;
  • gestão de exceções aumenta resiliência operacional;
  • disciplina operacional sustenta resultados consistentes.

O case reforça que excelência logística não depende exclusivamente de grandes investimentos tecnológicos, mas principalmente de execução disciplinada, relacionamento operacional, inteligência logística e liderança aplicada.


Referências Bibliográficas

BALLOU, Ronald H.
Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: Logística Empresarial. 5ª ed. Porto Alegre: Bookman, 2006.

CHOPRA, Sunil; MEINDL, Peter.
Supply Chain Management: Strategy, Planning, and Operation. 6th ed. Pearson, 2016.

WOMACK, James P.; JONES, Daniel T.
A Mentalidade Enxuta nas Empresas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

SLACK, Nigel; BRANDON-JONES, Alistair.
Administração da Produção. 8ª ed. São Paulo: Atlas, 2018.

BOWERSOX, Donald J.; CLOSS, David J.; COOPER, M. Bixby.
Supply Chain Logistics Management. 4th ed. McGraw-Hill, 2013. 



Autor

Talles Macêdo

Administrador (CRA-BA) | Especialista em Gestão Operacional, Logística e Supply Chain.
Atuou como Gestor de Logística na Votorantim Cimentos, com experiência em operações industriais, centros de distribuição, gestão de transportes, roteirização, distribuição regional e reestruturação logística voltada para aumento de eficiência operacional e nível de serviço.

1 Comentários

  1. Excelente artigo. O case demonstra de forma clara como gestão operacional, integração entre áreas e inteligência logística podem transformar resultados mesmo em cenários de alta complexidade. Conteúdo muito rico para profissionais de logística e supply chain.

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